Riqueza Natural

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Brasileiros que tocam no exterior discutem desabafo de Ed Motta





Todos rejeitam fala agressiva, mas maioria vê pontos válidos no recado.Nomes do metal (Angra) ao sertanejo (Marciano) falam de fazer shows fora.


Sair de palcos do Brasil e se aventurar em outros países não é fácil. A expectativa do público estrangeiro e a de brasileiros que moram fora nem sempre coincidem. Também pode variar a relação do artista com os diferentes públicos nos shows lá. O recente desabafo de Ed Mottacontra uma "turma simplória" do Brasil que "não fala o básico de inglês" é um exemplo disso – ele pediu desculpas depois pela forma "raivosa e equivocada" do texto.

G1 conversou com músicos brasileiros de "passaporte carimbado" para ouvir opiniões sobre a experiência de tocar fora e sobre como eles lidam com fãs estrangeiros e brasileiros nestas ocasiões. Todos reprovam o discurso agressivo de Ed Motta, mas a maioria vê pontos válidos no recado.

Falaram músicos de diferentes estilos: metal (Angra, Almah), rock (Autoramas), sertanejo (Marciano), canto lírico (Thiago Arancam), dance-punk (CSS) e um tiquinho assim de carimbó (Felipe Cordeiro). Confira as opiniões de cada um:

Edu Falaschi, do Almah, enxerga bem as diferenças de contextos entre os shows dele e de Ed: "Na verdade o que rolou com o Ed Motta é diferente, pois a cada álbum ele faz estilos diferentes: um mais jazz, outro mais soul. Aí complica, pois numa tour de jazz alguém pedir 'Manuel' realmente não tem a ver!".
O cantor de metal foi vítima do fã brasileiro que reclama da língua usada por ele lá fora. "Isso já rolou em países como França, Itália e Japão", conta.
Falaschi lembra que durante um show em Nagoya, no Japão, um brasileiro gritou: "Aqui é Brasil, Edu, fala em português".

"Eu dei risada e respondi em tom de brincadeira e em português: 'E aí, cara, tudo bem? Na real aqui é Japão, você tá viajando!'. Ele sorriu e continuei o show todo falando em inglês. Acho indelicado com o público local ficar falando em português com uma minoria de dez num show com 2 mil japoneses."

'Afago'

Sobre o texto de Ed, ele pondera. "Tem um fator que devemos considerar quando estamos tocando fora: encontraremos brasileiros com saudades do país e ele vê no artista uma conexão com sua pátria, e só quer uma atenção 'especial'." Mas ele não vê motivo para não dar esse afago ao fã. "Não vejo problema nisso", diz Falaschi.

O guitarrista da banda de metal brasileira com trânsito pelo mundo não tem o problema da língua citado por Ed Motta: as músicas deles já são no idioma de Shakespeare. "O repertório do Angra sempre foi todo em inglês, e o público sabe que será isto que ele encontrará nos shows. Que o inglês é uma língua universal é um fato", diz Rafael Bittencourt.

Para ele, o comportamento dos brasileiros não é um problema – pelo contrário, é uma forma de ele matar saudades.
"Sim, o brasileiro é descontraído e alegre e é sempre gostoso encontrá-los fora. Matamos um pouco a saudade da nossa terra. Os japoneses, por exemplo, são super comportados e os brasileiros na plateia ficam fazendo piadas em português", afirma o guitarrista.

Ele não vê problema com a decisão de Ed de falar em inglês lá fora: "Achei um pouco indelicada a maneira que ele tratou o público do Brasil. Quando estamos aqui no Brasil, só falamos com o público em português. Nosso vocalista, Fabio Lione, italiano, já aprendeu o português apenas com esta finalidade. Porém, fora do Brasil, faz sentido falar em inglês para que os estrangeiros também entendam."


O líder da banda de rock independente veterana, que já tocou em 25 países, vê o Autoramas em situação bem diferente de Ed Motta lá fora.
"Pelo que li, ele está indo fazer um show de jazz, que não inclui os hits dele, fazendo uma coisa diferente do que espera parte do público que ele conquistou. Já a gente faz o mesmo show aqui ou fora, não tem problema", explica.

Gabriel contesta barreiras entre artista "brasileiro" e "internacional", que acabam enquadrando o artista daqui em estereótipos sobre o país. "O artista brasileiro, sempre que tem uma carreira internacional, envereda ou é rotulado pelo tal gênero 'world music'. Mas o mundo está começando a aprender que o Brasil não é isolado. Existem boas banda daqui de rock, hip hop, soul, funk, etc."
"Um brasileiro que mora lá fora pode curtir algo do Brasil lá sem apelar para a saudade – do 'banco da pracinha onde tocava 'Manoel'. E talvez seja essa a grande coisa do que o Ed Motta falou. Um artista de grande sucesso, que teve hits em TV, e a galera vai ao show para gritar 'Vai Parmera!'. Eu compreendo o que ele quis dizer. Só que foi muito agressivo", diz.

O músico paraense Felipe Cordeiro é sempre requisitado para festivais internacionais."Nos meus shows, em todos os festivais, as pessoas estavam interessadas nas novidades sonoras, a farra entra no meio", explica Cordeiro.

"Num primeiro momento, fiquei indignado com o tom preconceituoso e raivoso [da fala de Ed], isso é tudo de que a gente não precisa no país. Já há em excesso, promovido pela mídia conservadora e pelo marketing dos partidos políticos", afirma o músico.

"Depois, entendi que havia um motivo para aquilo e que talvez tivesse algum fundo de razão. Não é fácil lidar com playboys e saudosistas de plantão. Mas depois Ed Motta se redimiu em um texto absolutamente franco, o admirei por isso. Franqueza é tudo o que a gente precisa no país atualmente", diz Felipe Cordeiro.


 Adriano Cintra, ex-baterista do CSS (ou Cansei de Ser Sexy), esteve à frente de uma das empreitadas pop brasileiras de maior sucesso no exterior, especialmente na Inglaterra, nos últimos anos. Sua história com o CSS mostra que o caminho nem sempre é primeiro estourar em casa para depois tentar a sorte fora.

"O público do CSS no exterior nunca foi de brasileiros. Nunca tocamos em nenhum evento brasileiro, nunca tocamos em lugares conhecidos por fazerem shows brasileiros. Iam alguns brasileiros nos shows, mas eram pessoas que nos conheceram no exterior. Nunca fomos famosos no Brasil!", lembra o músico.

"Adoro o Ed Motta. Eu acho que ele tem o direito de ter a opinião que quiser e se eu tiver que falar alguma coisa sobre o que ele falou é: 'Ed, pense duas vezes antes de postar na internet o que pensa, porque tem coisa que a gente só divide com amigos'", comenta Adriano.

Mesmo fora da seara pop, os estereótipos sobre a música brasileira – citados no depoimento de Gabriel, dos Autoramas, acima – também aparecem. O cantor lírico brasileiro Thiago Arancam conseguiu emplacar uma carreira no exterior e mora há 12 anos na Europa. Mas não foi simples.
"Ser um cantor de ópera do Brasil, onde não temos tradição e somos conhecidos pelo samba e futebol, não foi fácil. Sofri preconceito: muitas vezes, mesmo sabendo que eu era brasileiro, me perguntavam se eu era espanhol ou português", conta.

'Povo alegre'

Mesmo no mundo da ópera, mais sério, o comportamento mais caloroso do brasileiro é notado. "Sem dúvida somos um povo mais alegre e nos notam nitidamente em meio a uma plateia de europeus mais sérios ou japoneses mais contidos", afirma o cantos lírico.
"Eu não me importo, até porque não nego a minha origem, mas também preciso dizer que nunca me aconteceu de lidar com pessoas que me faltaram com respeito ou o foram mal educados."

Sobre o discurso de Ed Motta, Thiago tenta considerar um "temperamento artístico". "Acompanhei pela internet o post. Nós, artistas, temos uma personalidade particularmente sensível. Muitas vezes, da mesma forma que colocamos para fora nossas emoções nas músicas, em algumas situações exteriorizamos emoções e frustrações sem pensar

O ex-parceiro de João Mineiro (morto em 2012) tem uma visão muito diferente de Ed Motta sobre sucesso e relação com o público. Depois de shows pela América Latina e EUA, ele não enxerga nenhum conflito ao encontrar o público brasileiro lá fora.
"Com certeza eles fazem muito mais festa, assim como todo brasileiro. Isso faz com que eu me sinta em casa. É também uma forma deles matarem a saudade, né? Eu adoro isso."
"Acredito que o Ed Motta não estava em um momento muito bom. Seja na vida pessoal, profissional, não sei o que se passou no momento em que ele fez o comentário, mas sei que não devemos descontar nada no público e nos nossos fãs", opina Marciano.
"Afinal, é por eles que a nossa carreira segue. Todas as pessoas passam por momentos ruins, mas nem por isso a gente desce a lenha na internet", completa o veterano.


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